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Alunos do PPGCF/UFRA participam de disciplina internacional Brasil/Noruega

  • Publicado: Terça, 10 de Dezembro de 2019, 11h27
  • Última atualização em Terça, 10 de Dezembro de 2019, 11h30
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Alunos do Programa de Pós-Graduação em Ciências Florestais da Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra) estão participando do Curso Internacional de Ecologia em Floresta Tropical. Desde 2018, acadêmicos dos cursos de pós-graduação em Ciências Florestais e Botânica participam do evento. O curso é oferecido para as instituições membros do Consórcio de Pesquisa em Biodiversidade Brasil-Noruega (BRC), do qual a Ufra participa, juntamente com o Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), Universidade Federal do Pará (UFPA) e Universidade de Oslo (UiO), na Noruega.

 

O evento, que acontece anualmente, é realizado em duas etapas. A primeira ocorre no Brasil, na Estação Científica Ferreira Penna, do MPEG, localizada na Floresta Nacional de Caxiuãna, no Pará. Já a segunda etapa é realizada na Noruega, na Universidade de Oslo.

 

Na edição 2019, a primeira etapa do curso ocorreu de 20 de agosto a 7 de setembro de 2019, oportunidade em que os alunos trabalharam com metodologia de coleta de dados de fauna e flora. Também visitaram uma área de concessão florestal na Flona e a mineradora Hydro, em Paragominas. A segunda etapa está foi realizada entre 27 de outubro e 11 de novembro.

 

Pelo programa de Ciências Florestais da Ufra, estão participando do evento os discentes Caio Soares, Gabriel Máximo e Igor do Vale, que estão em Oslo. Os acadêmicos estão aprofundando seus conhecimentos, através da disciplina “Field course in tropical rainforest ecology and biodoversity” e desenvolvendo atividades relacionadas à extração de DNA, análise de dados em laboratório e escrita científica. Os participantes também terão a oportunidade de conhecer a Hydro, em Holmestrand.

 

A coordenação do PPGCF/UFRA entrevistou os participantes para poder saber mais da experiência:

 

Entrevistado: Igor do Vale

 

1)    Como essa experiência contribuiu para sua carreira de pesquisador?

Resposta: A Ecologia é uma área da ciência que abrange uma larga amplitude de linhas de pesquisa. Você pode trabalhar com plantas, animais, fungos, microorganismos, relações edafoclimáticas, vida aquática, terrestre, em escala local, escala de paisagem... enfim, são diversas as possibilidades. E o formato do curso, com professores especializados em diferentes temáticas, favorece exatamente esse olhar mais amplo sobre as multifacetas que a pesquisa de campo pode apresentar.

 

Como jovens pesquisadores, é fundamental que estejamos abertos a experiências que podem mudar ou ampliar os nossos interesses. Eu cheguei a ouvir um aluno dizer que finalmente se encontrou na ciência e agora quer trabalhar dentro da Ecologia. Pessoalmente, o intercâmbio de conhecimento entre meus colegas pesquisadores estabeleceu novos limites sobre o meu trabalho, e uma maior disposição para sair da minha zona de conforto e buscar oportunidades em outras áreas da pesquisa.

 

2)    Como essa experiência contribuiu para seu crescimento profissional, pessoal e cultural?

Resposta: Como são várias instituições participantes, nacionais e internacionais, a possibilidade de network é muito grande. Você apresenta o seu trabalho e conhece os projetos de diversos possíveis futuros parceiros. A aproximação nas relações profissionais e pessoais são inevitáveis devido a intensa rotina de convivência, seja em campo, nas salas de aula ou nos laboratórios. O curso ainda é muito próximo do setor privado, com visitas técnicas a grandes empresas do setor madeireiro e de exploração mineral, que nos forneceram todo o suporte logístico, e condições para que futuros projetos possam ser desenvolvidos em parceria.

 

No âmbito pessoal e cultural, essa experiência superou minhas expectativas. Fiz amizades para a vida, com pessoas que inclusive já trabalhavam bem próximas a mim, mas que as oportunidades de colaboração nunca se fizeram presentes. E claro, novos amigos foram formados, até além do Atlântico.

 

Neste contexto, a troca cultural foi intensa. Não só entre Brasil e Noruega, mas entre Belém, Portel, Irlanda do Norte, Sergipe, Amapá, São Paulo, Suécia, Minas Gerais e por aí vai. Os alunos e professores vieram com diferentes bagagens e todos aproveitaram essa mistura cultural de uma forma ou de outra.

 

Para se ter uma ideia, essa troca estava até na forma de andar. Lembro-me do Dr. Douglas Sheil, professor da Universidade Norueguesa de Ciências Naturais e renomado pesquisador das florestas tropicais, falando sobre como brasileiro anda devagar para não transpirar muito sob o sol quente, e que no frio da Noruega, era preciso andar rápido para aquecer o corpo. É tudo uma questão de flexibilidade cultural, ele dizia.

 

3)    Na sua opinião há alguma diferença entre as visões de Amazônia dos brasileiros e noruegueses?

Resposta: Sem dúvida. O impacto que os noruegueses tiveram ao chegar na Floresta Nacional de Caxiuanã foi nítido. Poucas pessoas conseguem ter a oportunidade de conhecer uma região tão bem conservada e protegida, onde é possível ter a noção da grandeza e imponência da floresta amazônica em seu estágio clímax. Ainda mais em uma região remota com alojamentos tão bem estruturados, como os disponíveis na Estação Científica Ferreira Penna. Qualquer visão de Amazônia formada anteriormente, muda ao conhecer esse patrimônio ambiental e científico do Brasil.

 

Contudo, acredito que todos que estavam ali, tinham consciência da importância que a conservação e o uso sustentável dos recursos naturais da região amazônica possuem para o mundo. No meio científico, não há mais dúvidas sobre o impacto do homem no clima do planeta. Na Noruega, essa discussão já está bem avançada. Oslo, sua capital, é considerada a capital verde da Europa. O Fundo Amazônia, no qual a Noruega contribui com cerca 94% dos investimentos em ações de combate e prevenção do desmatamento, além de ações de conservação do bioma, é outro indicativo forte de que os interesses noruegueses estão alinhados à ciência brasileira que tem mostrado ao longo dos anos o papel crucial que a Amazônia tem na promoção de serviços ecossistêmicos em termos locais e globais.

 

4)    Na fase que ocorreu no Brasil, qual você considerou a experiência mais interessante?

Resposta: O período que ficamos na FLONA Caixuanã foi coincidente com o aumento do número de queimadas na Amazônia em agosto deste ano (2019). Tínhamos acesso limitado à internet e televisão, mas conseguíamos ficar informados da situação. Soubemos que houveram queimadas criminosas, comunidades tradicionais e indígenas estavam em risco, ONGs foram levianamente responsabilizadas, e uma comoção internacional se formou com a hashtag #PrayForAmazonia, o que gerou uma crise internacional no Governo.

 

Antes das queimadas, o desmatamento já mostrava um crescimento alarmante na região, e como resposta, a Noruega suspendeu o repasse de milhões de reais para o Fundo Amazônia. Portanto, ao mesmo tempo que estávamos isolados na floresta, imersos no nosso curso, recebíamos notícias do “mundo de fora” que parecia muito próximo do que estávamos vivendo ali.

 

O momento mais marcante foi durante a visita à empresa de exploração madeireira, em que após o jantar, nos reuníamos para assistir o telejornal e em meio às disputas políticas internacionais, discutíamos o nosso papel naquele cenário. O curso, então, ganhou novas perspectivas. Perspectivas sociais e políticas, que devemos sempre ter em mente, mesmo quando fazemos ciência.

 

5)    Na fase que ocorreu na Noruega, qual você considerou a experiência mais interessante?

Resposta: Citarei duas experiências. Em Oslo, tive a oportunidade de assistir aulas de escrita científica com o professor Åsmund Eikenes da Universidade de Oslo. Escritor, jornalista e biólogo, suas aulas foram muito instigantes, principalmente na minha perspectiva como professor. Técnicas de ensino interativas, que focam mais na prática do aluno do que nos resultados, se mostraram bastante úteis no treinamento da redação científica. Tais técnicas poderão ser replicadas em aulas de Metodologia Científica e na orientação de alunos.

 

As palestras também foram muito enriquecedoras. Destaco a palestra do Dr Torkjell Leira, professor da Universidade de Oslo e chefe do departamento de mudanças climáticas, intitulada “Impactos do Governo Bolsonaro sobre a Amazônia”, onde pudemos ter a visão de um norueguês sobre as nossas recentes políticas ambientais e o que os dados científicos nos mostram. Além disso, foi discutido o papel da empresa norueguesa de exploração de alumínio Hydro, seus impactos ambientais e a sua relação com as comunidades locais de Barcarena.

 

Sobre a cidade, devo citar a qualidade da água encanada dita como a melhor do mundo, pronta para beber; e a qualidade do sistema de transporte de Oslo, com ônibus, metrôs e trens interligados. Para quem convive em Belém com as obras do BRT, foi um baita choque cultural.

 

Entrevistado: Grabriel Maximo da Silva

 

1) Como essa experiência contribuiu para sua carreira de pesquisador? 

Resposta: Tal experiência foi enriquecedora por envolver campos diversos dentro da biologia e da engenharia florestal que antes não tive contato. A interdisciplinaridade na prática foi extraordinária, principalmente, em campo (Caxiuanã) onde trabalhamos em vários momentos em equipes bem diversas com pessoas que tinham diferentes habilidades e afinidades científicas. O contato com outros professores e pesquisadores de diferentes instituições também contribuiu para obter visões diferentes de como cada instituição lida com a pesquisa. As metodologias aprendidas e executadas em campo foram extremamente enriquecedoras para minha carreira como pesquisador, e sem dúvidas, muitas delas irei aplicá-las em minha carreira científica.

 

2) Como essa experiência contribuiu para seu crescimento profissional, pessoal e cultural? 

Resposta: O crescimento profissional, pessoal e cultural em minha opinião estão ligeiramente interligados. Não há como ser um bom profissional se seu desenvolvimento pessoal é fraco e o cultural é pobre e fechado. Experiências como estas onde temos contatos com pessoas de diferentes países e até mesmo diferentes regiões do Brasil nos humanizam e despertam valores que talvez não tínhamos dado tal importância. Profissionalmente, aprender métodos de coleta de dados, envolver-se diariamente com o campo enriqueceu meus conhecimentos e habilidades práticas.

 

Os Noruegueses quando chegaram na Amazônia ficaram vislumbrados com tanta grandiosidade e riqueza que possuímos quando falamos de biodiversidade, fato este que diversas vezes não damos tanta importância por ter contato próximo e diário com a Amazônia, porém, aprendemos muito com essas atitudes de respeito e importância com a natureza. Culturalmente, a imersão na Noruega permitiu conhecer o hábito do dia-a-dia dos noruegueses na alimentação, atividades culturais, explorar os museus em Oslo e apreciar a beleza que é a organização e arquitetura da cidade. Pessoalmente, ver como um país desenvolvido e organizado funciona é um momento para refletir o quão o país que eu vivo precisa melhorar em muitos aspectos, mas também refletir quais as coisas boas que o Brasil possui e o que eu posso fazer para tornar meu país melhor.

 

3) Na sua opinião há alguma diferença entre as visões de Amazônia dos brasileiros e noruegueses?

Resposta: Nós Brasileiros não valorizamos nosso bioma como deveríamos, para nós a Amazônia sempre existiu e faz parte da nossa rotina. É dela que tiramos produtos como fonte de matéria prima e recursos. Para os Noruegueses a grandiosidade da floresta vai muito além de um estoque de recursos, eles enxergam muito mais a floresta como suas funções ecossistêmicas e sua importância global do que os próprios nativos. Cada borboleta que víamos, por menor que fosse, eram registradas com vislumbro pelos noruegueses, coisa que pra nós é algo trivial. A biodiversidade na Amazônia é muitas vezes subestimada e vista como algo importante apenas localmente e não com uma visão sistêmica e global que necessita, fora que muitas pessoas não valorizam nem as comunidades locais e os povos tradicionais que a habitam.

 

4) Na fase que ocorreu no Brasil, qual você considerou a experiência mais interessante?

Resposta: Diferentes metodologias de coletas de dados, imersão no campo por mais de 15 dias e trabalho em equipes.

 

5) Na fase que ocorreu no Noruega, qual você considerou a experiência mais interessante?

Resposta: Desenvolvimento pessoal, aperfeiçoamento do idioma e técnicas de redação científica e laboratório. Intercâmbio cultural, visitas nas universidades (University of Oslo e NMBU) e museus.

 

Entrevistado: Caio Rodrigo Alves Soares

 

1) Como essa experiência contribuiu para sua carreira de pesquisador?

Resposta: Os conhecimentos adquiridos nesta experiência não estão muito ligados a minha atual linha de pesquisa, contudo, é extremamente válido o contato com novas áreas de atuação, até mesmo para uma tomada de decisão sobre que linha de atuação realmente melhor se complementa com minha aptidões acadêmicas. Pude construir durante o curso, uma maior ligação com as áreas da ecologia, que no futuro, pode se tornar um possível ponto focal da minha carreira acadêmica.

 

2) Como essa experiência contribuiu para seu crescimento profissional, pessoal e cultural?

Resposta: Pude ter contato com campos de pesquisa e com profissionais de diferentes áreas do conhecimento voltadas para a Ecologia, além da vivencia a prática das atividades de campo relacionadas a estas atividades. Esta construção de network, a expansão do know-how de metodologias de pesquisa e ferramentas estatísticas novas, além da troca cultural marcante entre brasileiros e noruegueses sem dúvidas ficarão marcadas em minha carreira acadêmica e em minha vida pessoal.

 

3) Na sua opinião há alguma diferença entre as visões de Amazônia dos brasileiros e noruegueses?

Resposta: A relação entre brasileiros (em especial para os moradores da região Norte) e a Amazônia é quase simbiótica. Os brasileiros entendem a floresta como um local que evidentemente precisa ser preservado, contudo existe uma relação de dependência direta do amazônida com a floresta, da qual advém muito do meio de vida da população. Deste modo, a floresta é entendida não como um lugar intocável e que deve ser mantido integralmente intacto, mas sim como uma fonte de recursos, que dever ser entendida e estudada a finco, para uma utilização sustentável. Durante o projeto, percebi que a visão dos noruegueses sobre a Amazônia é muito mais voltada para o sentido conservacionista do que para o uso consciente. Durante a visita a companhia madeireira que possui concessão para a retirada de madeira legalizada da floresta nacional de Caxiuanã, esta diferença de visões ficou bem clara. Na oportunidade, foi realizado o corte de um indivíduo de Maçaranduba, atividade essa que foi presenciada por todos nós. O que para a maioria dos brasileiros tratou-se de uma retirada sustentável de recursos florestais, para os noruegueses foi uma cena de evidente destruição da floresta.

 

4) Na fase que ocorreu no Brasil, qual você considerou a experiência mais interessante?

Resposta: A execução do projeto final de coleta de dados em campo sobre a distribuição de palmeiras em dois ambientes de várzea ao longo do curso do rio Curuá, na FLONA Caxiuanã.

 

5) Na fase que ocorreu no Noruega, qual você considerou a experiência mais interessante?

Resposta: As aulas de escrita científica e as metodologias de extração e replicação de DNA, além claro do contato único com a cultura norueguesa, tão diferente da brasileira.

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